Raymond Scott: o pioneiro da música eletrônica que trabalhou para Pernalonga e Motown
19/07/2017 - 9h25 em Música

Raymond Scott já rumava para os 60 anos de idade e era um compositor reconhecido quando se mudou para seu estúdio e laboratório musical Three Willow Park, em um complexo de armazéns e escritórios em Long Island, próximo a Nova York. Em 1965, Scott era conhecido principalmente por faixas de jazz que se tornaram a assinatura de desenhos clássicos da Warner Bros., como Pernalonga e Patolino, além de obras para filmes de Hollywood e propagandas.

Em paralelo, no entanto, o compositor usava suas habilidades de engenharia para criar equipamentos e experimentar com a música eletrônica que nascia. Agora, uma parte do trabalho do período em Long Island está disponível na coletânea “Three Willow Park: Electronic music from inner space, 1961-1971”, que pode ser ouvida em serviços de streaming como Spotify e Deezer.

ançado em junho de 2017 pelo selo dinamarquês Basta Music, o álbum foca na produção de Scott entre 1961 e 1971, e dá sequência à coletânea Manhattan Research Inc, que focava no período de 1953 a 1969 e foi lançada em 2000.

Algumas das faixas se parecem com experimentos inconclusos. Outras se assemelham a faixas de álbuns tradicionais e permitem acompanhar a evolução do trabalho de Scott. “Cindy Flair Look Rhythm”, por exemplo usa a estrutura de “Cindy Flair Electronium”, que aparece na coletânea lançada em 2000.

Elas foram compostas com o auxílio do Electronium, uma máquina inventada por Scott que tinha a capacidade de misturar ritmos, timbres e tons e criar música de forma aleatória, apontando possibilidades pouco óbvias.

 Além do Electronium, a coletânea traz sons produzidos com o Clavivox, um sintetizador inventado por Scott, um gerador automático de linhas de baixo, geradores de efeitos de som e uma bateria automática batizada de “Bandito the Bongo Artist”, entre outros equipamentos. Quem foi Raymond Scott e qual seu papel na música.

Com o nome de batismo de Harry Warnow, Raymond Scott nasceu no dia 10 de julho de 1908 no bairro de Brooklyn, em Nova York. Ele mostrou desde cedo talento musical, e aos 2 anos era capaz de tocar piano. Em 1927, se formou na Brooklyn Technical High, uma instituição pública de ensino médio especializada em tecnologia, engenharia e matemática.

Quatro anos depois, em 1931, se formou no Instituto de Arte Musical, que posteriormente passou a se chamar Juilliard School, também em Nova York.

Com pouco mais de 20 anos, passou a trabalhar como pianista da rádio CBS em uma banda comandada pelo seu irmão Mark Warnow. Para esconder a relação familiar com o condutor do grupo, Harry adotou o nome de Raymond Scott, escolhido aleatoriamente em uma lista telefônica.

Em 1936, Scott convence seus chefes a permitirem que montasse a sua própria banda, chamada “The Raymond Scott Quintette”. Seu primeiro lançamento foi “The Toy Trumpet”, cujo sucesso abriu o caminho para  gravações como “Dinner Music for a Pack of Hungry Cannibals”.  

Em 1937, o Quintette assina um contrato com o estúdio 20th Century Fox, o que faz com que participe de uma série de filmes de Hollywood, como “Ali Babá é Boa Bola” e “Sonho de Moça”.

Em 1942, o estúdio de animação da Warner Bros. comprou todos os trabalhos gravados até então por Scott. A partir do ano seguinte, as músicas passaram a ser usadas repetidamente em desenhos de personagens como Pernalonga, Patolino e Papaléguas. Trechos de suas obras aparecem cerca de 140 vezes em 120 desenhos da Warner.

Apesar de não terem sido compostos com esse propósito, trabalhos como a frenética “Powerhouse” evocam hoje a imagem do funcionamento de uma fábrica Acme — marca atribuída a grande parte dos produtos industriais que aparecem nos desenhos do estúdio. Décadas depois, essas canções continuaram a ser usadas em novas animações, como Ren & Stimpy.

O papel de Scott na eletrônica

Em 1946, Scott funda o Manhattan Research, o primeiro estúdio focado em música eletrônica do mundo. Inicialmente, o local possuía equipamentos como o Ondes Martenot, um dos primeiros instrumentos de música eletrônica, inventado em 1928 pelo francês Maurice Martenot. Ele possuía também um Ondiolino, um precursor dos sintetizadores inventado em 1941 pelo francês Georges Jenny, que Raymond Scott utilizou no álbum de 1963 “Soothing Sounds Bor Baby”, voltado para bebês de até 18 meses.  

Em 1952, Scott inventou o Clavivox, um dos primeiros sintetizadores. Sete anos depois, em 1959, criou o Electronium, uma máquina operada a partir de centenas de botões e chaves, e alteração aleatória de tons, ritmos e timbres em sequência. A máquina utilizava alguns componentes inventados por Robert Moog, engenheiro pioneiro que ficou conhecido por criar os sintetizadores Moog.

O próprio Scott descreveu, com um uso peculiar de pontuação, o funcionamento da máquina da seguinte maneira:

“Um compositor ‘pede’ ao Electronium que sugira uma ideia — tema — motivo — tanto faz. Ele as ouve em um alto falante monitor. Quando está satisfeito com uma das ideias, ele para o Electronium, liga o gravador de fitas no modo gravação e começa a gravar. Com o botão de iniciar do Electronium pressionado, a composição está a caminho. Digamos que o tema de abertura está finalizado, o compositor decide que, como um primeiro passo no desenvolvimento de seu tema — ele deseja repeti-lo, mas em um tom mais alto — ele aperta o botão apropriado. Ou, talvez, ele queira modificar o tema um tanto a partir desse novo tom mais alto e transposto — por exemplo para aumentar os intervalos.., ele gira outro botão”

Em 1965, Scott se divorciou de sua esposa, Dorothy Collins e se mudou para o Three Willow Park, onde passou a trabalhar e morar. As 61 faixas do álbum lançado em junho de 2017 captam algumas das experimentações com o Electronium desse período.

Em 1970, o dono da gravadora Motown, Berry Gordy, ofereceu US$ 10 mil para que Scott construísse um Electronium para sua companhia. A Motown foi uma empresa mítica dentro do cenário musical dos Estados Unidos, responsável durante décadas por álbuns importantes de músicos que mudaram a música do país, como Michael Jackson, Stevie Wonder, Diana Ross e Marvin Gaye.

O compositor levou a máquina que possuía em seu estúdio e a elaborou em algo mais parecido com um instrumento tradicional. No ano seguinte, Scott foi contratado como chefe de pesquisa eletrônica da gravadora. Ele se mudou então de Three Willow Park para Los Angeles, onde passou a trabalhar na gravadora.

Nenhuma canção produzida a partir da máquina foi, no entanto, utilizada pela Motown. Em entrevista publicada em junho de 2017 pela revista LA Weekly, o curador da obra de Scott, Jeff Winner, afirma que ela realizava suas composições de forma independente da vontade de quem a operava.

Isso não se encaixava nas intenções de Berry Gordy ou de artistas que tinham a expectativa de direcioná-la, mas é exemplar do espaço que Scott destinava ao acaso em sua música, assim como ao que chamava de “colaboração artística entre homem e máquina”.

“Ela havia sido projetada para ser uma compositora, e com Ray nos controles, fazia isso muito bem. Mas uma vez que você tentava, de certa maneira, submetê-la e fazer com que fizesse o que você desejava, se tornava infinitamente mais difícil. Isso foi o que acabou com ela, em termos de obter aceitação na Motown”, afirmou Winner.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/07/18/Raymond-Scott-o-pioneiro-da-m%C3%BAsica-eletr%C3%B4nica-que-trabalhou-para-Pernalonga-e-Motown

Fonte: http://nexojornal.com.br 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!